sexta-feira, 7 de julho de 2023

Cinema: a vida e a carreira de Stanley Kubrick

Stanley Kubrick - Um gênio um tanto fantástico
Por Anthony M. D. Muniz

"Se pode ser escrito, ou pensado, pode ser filmado." - Stanley Kubrick.

Há poucas figuras na história do cinema que tiveram uma filmografia tão singular e influente quanto a de Stanley Kubrick. Ele foi um diretor que se aventurou em diferentes décadas, gêneros e maneiras de se fazer cinema.

Stanley Kubrick durante as gravações
de "Barry Lyndon". Fonte: Wikipedia.
Ele nasceu em 26 de julho de 1928 no Bronx, em Nova Iorque. Filho de pais nova-iorquinos (Jacques Leonard Kubrick e Gertrude Kubrick) de famílias judias originárias da Europa Central, ele cresceu em um apartamento com a sua irmã, seis anos mais nova, com quem dividiu uma infância tranquila. Ele foi um aluno de desempenho baixo, sendo a matéria de Física a única em que ia, de fato, bem durante as aulas. Mesmo assim, sempre demonstrou uma personalidade inteligente e analítica. Essas qualidades encontraram vazão após seu pai ensiná-lo a jogar xadrez aos 12 anos de idade, esporte em que se desenvolveu com muita habilidade, permitindo com que ganhasse alguns poucos dólares em competições. Mas, mais importante que isso, essa destreza no xadrez lapidou a sua capacidade de análise e reflexão, marca essencial dos anos que se seguiram como diretor.

Nesse início da adolescência, além do xadrez, outro interesse se destacou com clareza para ele: o Jazz. Além de um ouvinte assíduo e extremamente interessado nos artistas daquela época, ele tocava bateria e tinha uma profunda vontade de se tornar um baterista de Jazz profissional. Mas, esses interesses junto a sua mediocridade escolar fizeram com que seu pai se preocupasse com o que ele poderia fazer de seu futuro. Com a intensão de desviar essas "obsessões" da mente do filho, seu pai o presenteou com uma câmera fotográfica Graflex. O resultado não poderia ser mais favorável.

Fonte: ilmondodelleimmagini.altervista.org.
Tendo recebido essa câmera de presente aos 15 anos de idade, o diretor passou a dedicar seu tempo ao hábito fotográfico, desenvolvendo um talento admirável. Logo tornou-se o fotógrafo oficial de seu colégio, conseguindo que algumas de suas fotos fossem expostas. Foi nessa época que, em uma manhã de abril de 1945, enquanto ia para o colégio, ele tirou uma fotografia que seria crucial para a sua vida. Ele fotografou um cabisbaixo e cansado jornaleiro diante das manchetes que anunciavam a morte de Franklin D. Roosevelt, capturando com extrema perspicácia o sentimento que havia assolado o país. Essa fotografia acabou sendo vendida para a revista Look por 25 dólares e, um tempo depois, ele foi contratado, aos 17 anos, como fotógrafo pela chefe do departamento de fotografia da revista, Helen O'Brien. A partir daí, seu trabalho como fotógrafo se expandiu notavelmente, sendo muito reconhecido pelo seu talento.

Durante esses anos de trabalho, Kubrick viveu uma tremenda expansão cultural e pessoal. Ele tornou-se um leitor prolífico e, também, esse trabalho lhe permitiu viajar por muitas partes dos Estados Unidos e por algumas partes do mundo. Esse momento de formação intelectual fez com que ele se inscrevesse como ouvinte na Universidade de Columbia, em Nova Iorque, onde assistiu às aulas de Lionel Trilling e Mark Van Doren.

Seu envolvimento com a fotografia fez om que seu interesse pela construção das imagens e, consequentemente, pelo cinema crescesse rapidamente. Foi então que decidiu sair de seu trabalho carregando com ele o desejo de se tornar um cineasta.

O reencontro com um antigo amigo do colégio, Alexander Singer (que futuramente seria diretor também), fez com que surgisse uma oportunidade. Singer trabalhava como assistente na March of Time, na época uma célebre série de atualidades cinematográficas, e soubera que seus patrões gastavam cerca de 40 mil dólares para a feitura de filmes de oito ou nove minutos. Juntos, Kubrick e Singer, decidiram fazer um curta-documentário que custaria dez vezes menos. Sendo assim, a primeira produção de Stanley Kubrick foi "O Dia da Luta" (1951) sobre o boxeador de peso médio Walter Cartier, sobre o qual o diretor já havia feito uma reportagem fotográfica para a Look. Mas o curta, que foi feito em 35 mm, não foi comprado pela March of Time, que ofereceu pelo filme um valor menor que o do orçamento, mas adiantando a ele 1.500 dólares na sua produção seguinte, "Flying Padre" (1951). Esse foi outro curta-documentário sobre um padre que viajava de uma paróquia indígena a outra, no Novo México, em um Piper Cub (um avião monomotor a pistão, fabricado de 1937 a 1947).

Depois desses dois empreendimentos, ele sai definitivamente de seu trabalho como fotógrafo da Look e decide começar a trabalhar em sua primeira ficção em longa-metragem. É então que lança "Medo e Desejo" (1953), uma produção pequena que, mesmo feita com recursos escassos, consegue chamar a atenção da crítica, despertando a vontade de investir em outra produção. Curiosamente, anos depois do lançamento, Kubrick ficaria tão envergonhado com esse primeiro longa que tentou retirá-lo de circulação de todas as maneiras possíveis.

Nos três anos seguintes ele trabalhou em outras três produções: o curta-metragem "The Seaferers" e os longas "A Morte Passou por Perto" e "O Grande Golpe", que o ajudaram a expandir suas habilidades narrativas, especialmente os dois longas-metragens (que foram muito inspirados nos filmes noir produzidos na época). Mas, foi somente seu filme seguinte que teve impacto considerável em sua carreira, "Glória Feita de Sangue".

Filme: Glória Feita de Sangue.
Fonte: Papo de cinema.
Lançado em 1957, o longa aborda o julgamento de uma tropa francesa que, durante a Segunda Guerra Mundial, se recusou a participar de uma ofensiva, claramente suicida, contra o inimigo. Por causa dessa ação, todos foram acusados de covardia pelo general. O comandante deles (interpretado por Kirk Douglas), para defendê-los, tenta dissuadir o general de medidas mais drásticas. Com forte discurso antiguerra, passamos a acompanhar o avanço "desesperançoso" do comandante enquanto nos damos conta, junto com o protagonista, dos movimentos injustos das guerras, que descartam soldados como peças de um tabuleiro inconsequente. Um dos momentos mais memoráveis do longa é o final do filme, em que vemos um grupo de soldados se emocionarem com uma canção cantada por uma refugiada alemã (interpretada por quem seria a terceira esposa de Kubrick e com quem viveria até o fim de sua vida). Até hoje, esse é considerado um dos melhores filmes sobre guerra de todos os tempos.

Este filme lançou Kubrick entre os diretores mais promissores da sua época, mas, antes que pudesse trabalhar em uma produção mais autoral, acabou sendo convidado por Kirk Douglas para trabalhar na direção de "Spartacus", um grande épico hollywoodiano. O convite se deu graças a amizade de Kubrick e Douglas depois do último trabalho juntos. Ele acabou aceitando a oferta.

A produção foi cara e caótica, com várias discordâncias criativas e atrasos. Apesar disso, o filme acabou sendo lançado em 1960 e tornou-se um sucesso de público e crítica, ganhando, inclusive, 4 Oscars, o que ajudou a salientar sua posição de bom profissional em Hollywood. Isso por ter conseguido terminar a produção, mesmo com dificuldades, e ter garantido o sucesso.

Todo esse tumulto fez com que ele desejasse não mais trabalhar em Hollywood e, então, mudou para a Inglaterra. Ainda assim, teve de retornar aos EUA para as filmagens de seu filme seguinte: "Lolita" (1962).

Assim como o romance no qual o filme foi baseado, o lançamento foi polêmico por apresentar na história o ponto de vista de Humbert Humbert, personagem que fica interessado em sua enteada de apenas 12 anos de idade (a personagem-título, Lolita). A partir desse filme, o diretor passa a utilizar o humor negro para compor as cenas, trazendo o absurdo e a excelência técnica da produção. O sucesso lhe garantiu uma indicação ao Oscar de Roteiro Adaptado, que foi escrito pelo autor do livro original, Vladimir Nabokiv.

Em 1964 ele lança uma de suas obras mais memoráveis: "Dr. Fantástico". Ambientado em uma versão fictícia da Guerra Fria, o longa acompanha uma série de personagens que precisa lidar com uma inesperada ameaça nuclear de um general americano que autoriza o lançamento de mísseis nucleares dos EUA contra a, então, União Soviética. Numa "sala de guerra" os membros do governo (incluindo o presidente) tentam corrigir a situação, acabando por consultar o Dr. Fantástico, um estranho especialista em poderio nuclear que já foi membro do Partido Nazista durante a Segunda Guerra Mundial (até ser recrutado pelos EUA quando a guerra acabou). Baseado em um romance de thriller político, o filme, em uma pegada satírica e um humor negro muito afiado, marcou a época por trazer representações (algumas bem exageradas) das tensões políticas daquele momento, além de proporcionar, talvez, a melhor performance da carreira de Peter Sellers (que lhe rendeu sua primeira e única indicação ao Oscar de Melhor Ator) que interpreta três personagens diferentes: o Capitão Lionel Mandrake, o Presidente Merlin Muffrey e o Dr. Fantástico (o bizarro personagem-título que, na versão original, garantiu ao diretor suas primeiras indicações ao Oscar de Melhor Direção, Roteiro Adaptado e Filme). Por causa desse filme, seus projetos seguintes tiveram pleno domínio criativo nas suas mãos, marcando um novo momento em sua carreira e, foi sabendo disso, que ele iniciou seu projeto mais ambicioso. Ele passou os 4 anos seguintes trabalhando numa das maiores obras de ficção científica da história: "2001: Uma Odisseia no Espaço" (1968). 

Produção do filme "2001: Uma odisseia no espaço".
Fonte: Stanley Kubrick - Ausstellung Exhibition.

Com o auxílio de Arthur C. Clarke (corroteirista e autor do livro do mesmo nome, que foi escrito concomitantemente ao filme) Kubrick expandiu a concepção do que poderia ser a ficção científica da época ao apresentar um longa-metragem (incutido de 3 histórias) que apresentava questionamentos existenciais sem se restringir totalmente a uma visão antropomórfica do cosmos, aos colocar seres humanos no filme em contato com um objeto que vai além de sua compreensão lógica.

Nessa produção, Kubrick dá vazão a um movimento de enriquecimento da semiótica de seu trabalho. Se em "Dr. Fantástico" já é possível ver um comentário mais claro das relações entre poder e sexo ou o militarismo americano e a construção da masculinidade (elementos inteligentemente explorados pelo senso de humor das situações) na sua construção simbólica, aqui ele inicia um processo de construção que expande as representações de sua mise-em-scène. Desde a música de abertura "Also sprach Zarathustra" de Richard Strauss (em referência à "Assim Falou Zarathustra" de Niietzche) ao famoso cut que marca a transição do osso usado como ferramenta de batalha pelo que seriam os ancestrais do homo sapiens para uma estação espacial, que marca brilhantemente a transição temporal do filme, entre outros mecanismos narrativos cuidadosamente inseridos pelo diretor.  Ele passa, a partir desse filme, a abordar as questões e camadas de seus filmes de uma maneira mais complexa (e quase hermética para alguns), que serão responsáveis por elevar as considerações quanto ao seu trabalho, sua intelectualidade e a influência de sua filmografia no cinema e nas maneira de se fazer cinema.

O crítico de cinema Michel Ciment define, em seu livro-coletânea "Kubrick", que "2001: Uma Odisseia no Espaço" marca um momento na filmografia de Kubrick em que ele se dedica a criar suas obras a partir de bases mais fantásticas. Tendo iniciado esse momento durante a feitura de "Dr. Fantástico", ele desenvolveu seus projetos por cerca de 20 anos, construindo-os em torno de universos ficcionais de melhor lógica interna restrita, com exceção apenas de "Barry Lyndon" (1975) que funciona melhor como um retrato pictórico da nobreza inglesa do século XVIII.

Em "Dr. Fantástico" testemunhamos uma realidade que será destruída por um bombardeio nuclear irrefreável, que foi motivado por circunstâncias pessoais e irreais. Em "2001: Uma Odisseia no Espaço" acompanhamos a realidade da humanidade em momentos diferentes de sua história (na maior parte em um futuro mais moderno e distante) interagindo com diferentes formas de tecnologia (conscientes ou não). Em "Laranja Mecânica" (1972), longa-metragem seguinte ao lançamento de "2001", retrata a vida de Alex DeLarge (brilhantemente interpretado por Malcolm McDowell), que é um jovem membro de uma gangue que aderiu a "ultraviolência" em seus ataques randômicos (toda a história é apresentada num futuro distópico, mas não tão distante assim). Por fim, em "O Iluminado", de 1980, (que, na visão de Michel Ciment, encerra esse período de representação fantástica) Kubrick apresenta a história de uma família que, lentamente, é levada à loucura após viver por algumas semanas dentro de um grande (e antigo) hotel durante o extremo inverno - filme que se tornou um dos mais reverenciados (e referenciados) filmes de terror da história do cinema.

Apesar de diferentes em suas representações e gêneros, todos os filmes carregam em comum (como característica principal) um deslocamento da realidade, que só é suscitada por elementos corriqueiros, mas que é marcada por representações distantes do real; desde, por exemplo, da realidade política, que é fragilmente abalada de maneira cômica e exagerada (em "Dr. Fantástico"), à percepção psíquica do real pelos personagem em cena (em "O Iluminado"). Essa distância do real é um dos fatores que permitem a amplitude das interpretações que o trabalho de Kubrick possibilita.

Durante os anos seguintes ao lançamento de "O Iluminado", Kubrick se dedicou a uma séria de projetos que não seguiram em frente. Seu maior projeto - que nunca foi lançado - foi uma biografia de Napoleão que, desde a conclusão de "2001", nunca saiu efetivamente do papel, mesmo tendo um trabalho de pesquisa e de pré-produção extenso e extremamente detalhado. Apenas outros dois projetos foram lançados nos 19 anos seguintes. Os dois últimos trabalhos de Kubrick marcam uma certa junção desses dois elementos de suas produções anteriores - a realidade fantástica e o real pictórico (apresentado em "Barry Lyndon").

Em 1987 ele lançou seu penúltimo filme: "Nascidos para Matar" (em inglês "Full Metal Jacket"). Nesse filme acompanhamos o soldado Davis, apelidado de "Joker" pelo sargento Hartman, em dois períodos diferentes de sua vida militar: durante seu treinamento militar e depois da sua atuação como oficial-jornalista no Corpo de Fuzileiros Navais na cobertura da Guerra do Vietnã. Com uma representação extremamente crítica da guerra (especialmente por tratar-se da infame Guerra do Vietnã), o filme teve um lançamento marcante, muito graças, também, às grandes interpretações de Vincent D'Onofrio e R.Lee Harmey, como o soldado Pyle e o sargento Hartman, respectivamente. O filme foi inteiramente filmado na Inglaterra, incluindo as sequências da guerra, marcando esse processo do diretor de produção de uma realidade "fantástica". Somente um ano depois desse lançamento seria lançado o seu, então, último longa-metragem.

Em 1999 é lançado "De Olhos Bem Fechados", seu último filme. Nele acompanhamos a breve trajetória "delirante" de Bill Harford (interpretado por Tom Cruise) que, após saber dos desejos que sua esposa Alice (interpretada por Nicole Kidman, na época também casada com Tom Cruise na vida real) sentiu por outro home em uma viagem, começa a perder-se cada vez mais em seus pensamentos carregados de ciúmes, que o motivam a entrar em uma série de situações suspeitas e perigosas. Com uma atmosfera enevoada e muito mais semelhante a fabulação de um sonho, o diretor apresenta ao público um mundo inescrupuloso da classe alta de Nova Iorque (cidade que foi construída na Inglaterra para as gravações do filme, com "erros arquitetônicos" propositais para a composição atmosférica dissonante) que existe muito bem escondida dos olhos comuns, por onde o protagonista se vê, ingenuamente, inserido.

Baseado no livro "Breve Romance de Sonho", de Arthur Schnitzler (livro que Kubrick tinha interesse de adaptar desde o início de sua carreira), o longa explora temas como o controle em um relacionamento, as regras não ditas sobre sexo e casamento, a construção da masculinidade e os limites do desejo em relação ao cotidiano. Mesmo sendo lembrado nos dias de hoje com admiração, o longa foi recebido com certa frieza pela imprensa, frieza essa que o próprio diretor não pode testemunhar. Uma semana após terminar a edição final do filme, Kubrick faleceu enquanto dormia por causa de um ataque cardíaco, o que o impediu de presenciar o lançamento do filme que ocorreu somente 4 meses após a sua morte.

Stanley Kubrick faleceu aos 70 anos, em 7 de março de 1999. Teve 3 casamentos, sendo o último com Christiane Kubrick com quem viveu por mais de 40 anos, até o momento da sua morte, e com quem teve 2 de suas 3 filhas. Ele deixou uma das mais importantes e influentes filmografias da história que continua a cativar as novas gerações.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

Cinema: a vida e a carreira de Fritz Lang

Fritz Lang - Para além das fronteiras do tempo
Por Anthony M. D. Muniz

"Devo dizer que eu era uma pessoa visual. Eu experimento com meus olhos e nunca,  
ou raramente, com meus ouvidos... para meu constante pesar." - Fritz Lang.

Fritz Lang (1890-1976) é uma daquelas figuras icônicas do cinema - ou mesmo da arte, num sentido geral - que se mostra imprescindível para a ideia do que se entende por cinema nos dias de hoje.

Fritz Lang - 1969 (Wikipédia).
Nascido em 5 de dezembro de 1980, em Viena, numa Áustria pertencente a uma Europa pré-guerra - hoje tão distante, fantástica e fantasmagórica quanto seus filmes - Fritz Lang pode testemunhar várias mudanças drásticas pelas quais o  mundo passou após a virada do século XX. E, para além do simples testemunho, foi um importante participante dessas transformações, pois acabou se tornando um dos mais célebres diretores de cinema e desempenhou um papel indispensável nessas primeiras décadas de existência do cinema, e no que tornar-se-ia essa arte até os dias de hoje.

Formou-se em arquitetura pela Universidade de Viena e, por alguns anos na década de 1920, exerceu o ofício de pintor. Após casar-se com a atriz, cineasta, roteirista e escritora alemã Thea von Harbou, em 1922, Lang tornou-se um cidadão alemão. Ainda assim, sua estreia como diretor já havia ocorrido um ano antes com o filme "A Morte Cansada", já tendo sua futura esposa como fiel roteirista de seus filmes, durante sua primeira fase na Alemanha. Nos anos seguintes produziu obras como "Dr. Mabuse, o Jogador" (1922), "Os Nibelugnos - A Morte de Siegfried" (1924) e "A Vingança de Kriemhilde" (1924) que, junto a outros grandes diretores como F. W. Murnau (1888-1931) e Robert Wiene (1873-1938), compôs parte do que foi o Expressionismo Alemão, movimento artístico inserido na pintura, escultura, literatura e, também, no cinema, sendo uma das mais importantes vanguardas europeias entre o final do século XIX e início do século XX. Ainda assim, o envolvimento com esse movimento aconteceu a partir de uma certa distância como uma reação natural ao que era produzido naqueles anos. Essa era, pelo menos, a impressão do próprio diretor, ao ser perguntado em uma entrevista para a revista francesa Cahiers du Cinéma, o quanto havia sido influenciado, ou em que medida ele havia reagido contra a corrente expressionista, ele disse: "Fui muito influenciado. Não se pode atravessar uma época sem receber alguma coisa dela".

No entanto, mesmo sendo durante esses primeiros anos um cineasta de sucesso - tanto dentro quanto fora da Alemanha - foi com o seu filme seguinte que o mito em torno de sua obra começou a se erguer. Em 1927 ele lançou seu mais icônico filme: "Metrópolis". A partir do roteiro escrito por sua esposa, baseado no livro de mesmo nome, também escrito por ela, o filme narra uma aventura épica em uma cidade futurista (no ano de 2026) na qual a sociedade é dividida em duas classes: a elite (chamada de "planejadores") que vive uma vida de muito lazer e habita na área superior da cidade, com paisagens belas e movimentadas, embaladas por tecnologias que tornam o convívio ágil e moderno, além de possuir uma arquitetura longilínea, de linhas retas e limpas; e uma classe "trabalhadora", enclausurada na área inferior, trabalhando por dez horas diariamente e sendo completamente impossibilitada de acessar o conforto disponível aos que vivem na parte superior da cidade. Essa divisão fortemente estabelecida começa a ser abalada quando o filho de um dos maiores planejadores se apaixona por Maria, uma trabalhadora da área inferior. Então, uma sucessão de acontecimentos instaura uma revolução lenta e implacável.

Fonte: Imagem do Youtube.

Esse foi o projeto que melhor sacramentou seu nome na história do cinema, pois acabou se tornando uma das mais influentes obras de ficção científica, apresentando um mundo "palpável" muito próximo das estruturas sociais da época e que apresentava um vislumbre muito mais distópico do futuro da humanidade se comparado a outras criações produzidas na época. A estrutura narrativa e a construção dos personagens, assim como a arquitetura da cidade e dos edifícios juntamente com o design da robô apresentada na produção, influenciaram diretamente produções como "Star Wars", "Blade Runner", "De Volta para o Futuro" e "Batman" (1989), entre muitas outras obras de diferentes mídias. Nas palavras do crítico de cinema Roger Ebert, o filme "é o ponto culminante do expressionismo alemão, a combinação de estilizados cenários, dramáticos ângulos de câmeras, sombras audaciosas e performances propositadamente teatrais".

Essa influência foi ampliada, também, com o auxílio do livro publicado anteriormente ao filme, escrito pela própria roteirista Thea von Harbou. Nele é possível ter uma visão mais detalhada da história e uma ampliação na simbologia da obra, utilizando de referências "esotéricas" e religiosas, coisa que é negligenciada pelo filme, focando muito mais na "ciência" da narrativa e em suas implicações naquela sociedade. É notável, também, o apagamento da memória da escritora, que foi crucial para a criação da produção; acredita-se que houve tal apagamento devido a sua identidade de gênero e por seu posicionamento fascista e sua atuação como membro do Partido Nazista - ela faleceu em 1954 ainda cumprindo pena pelos seus crimes.

É interessante observar, também, a maneira como alguns símbolos foram posteriormente apropriados pelo Partido Nazista na figura profetizada pela personagem Maria, que seria uma espécie de "salvadora" das classes mais baixas (na época terrivelmente afetadas pelo fim da Primeira Guerra Mundial) que combateria "as populações mais ricas e intelectualizadas" com o intuito de trazer igualdade e prosperidade para a população; um tipo de esvaziamento de sentido comumente feito pelos fascistas.

O filme inicialmente tinha uma duração de quase duas horas e meia, mas, devido à baixa bilheteria, a distribuidora decidiu reduzir a duração do filme retirando diversas cenas até que a produção tivesse menos de duas horas. Isso fez com que, por muitos anos, o filme apresentasse uma versão retalhada e inconclusiva da história, pois essas cenas cortadas acabaram sendo perdidas nos anos seguintes. Apenas em 2008 que foi encontrada uma versão mais longa (faltando apenas duas cenas) e próxima da versão original em um museu na Argentina, o que permitiu o acesso mais completo à obra pelo grande público de hoje em dia. É possível encontrar essa versão em alta resolução no Youtube, por exemplo.

O sucesso de "Metrópolis" seria seguido por outras duas produções: "Os Espiões" e "A Mulher na Lua", que carregavam um detalhe em comum com todos os outros filmes feitos anteriormente pelo diretor: todos eram "filmes mudos".

Mas tudo isso mudou com "M - O Vampiro de Düsseldorf". A partir desse filme, o diretor passou a utilizar o som como importante ferramenta para contar suas histórias e, fugindo do padrão hollywoodiano da época (que consistia em usar longas sequências de música para ostentar a nova funcionalidade), ele o usou de maneira extremamente seletiva, escolhendo momentos específicos em que o som tomava o devido protagonismo e conduzia a narrativa. A trama acompanha uma cidade alemã que começa a ser assombrada por um assassino de crianças, que as rapta em plena luz do dia. O status social dessa cidade é abalado, pois a polícia encontra dificuldades para identificar o culpado. Com isso, os grupos criminosos das redondezas decidem encontrar o assassino e "definir sua sentença".

Com um aspecto sombrio e uma edição ágil, o diretor apresenta as sequências de suspense de maneira comedida e pouco expositiva, focando numa tensão crescente (desde o assobio que o criminoso faz antes de cometer seus crimes ao desespero daqueles que tiveram seus filhos sequestrados) e em cenas de investigação em que o público compartilha o raciocínio dos investigadores. As sequências de investigação no filme foram essenciais para uma série de técnicas, padrões e clichês que muitos filmes do gênero policial acabaram se apropriando, das produções mais antigas como "O Falcão Maltês", de 1941, às mais contemporâneas como "Seven - Os Sete Pecados Capitais", de 1995.

Para além do valor histórico e iconográfico, o filme "M - O Vampiro de Düsseldorf" reflete sobre a turbulência social pela qual a Alemanha passava durante aquele início de década (em que o Partido Nazista começava a ganhar protagonismo) e, no terceiro ato do filme, levantava um interessante debate a respeito da morte do criminoso (sendo esse o desejo da população e dos criminosos daquele local).  Seria a morte do criminoso justa? Realmente traria algum benefício para a sociedade? - debate que é inteligentemente passado ao público com o final em "aberto" deixado pelo filme.

Seu filme seguinte  marca um momento crucial em sua vida. Em 1933 ele lançou "O Testamento de Dr. Mabuse", continuação do filme mudo de 1922, "Dr. Mabuse, o Jogador", em que o vilão (e personagem-título do filme) utiliza-se de discursos parcialmente inspirados nos lemas nazistas propagados na época. Esse detalhe marcou o momento em que o diretor deixou claro sua discordância com o Partido Nazista que, nesse mesmo ano, tomou o controle do parlamento e no qual Adolf Hitler foi nomeado chanceler. Nesse ano, Fritz Lang (que tinha uma ascendência judia por parte da família da sua mãe) abandona a Alemanha com destino aos Estados Unidos da América. Nessa partida, ele se divorcia de sua mulher, que era membra do Partido Nazista e havia decidido continuar no país.

Ao chegar nos Estados Unidos, ele precisou reestabelecer sua carreira, iniciando assim uma série de produções americanas dedicando-se, principalmente, a filmes do gênero policial. A sua contribuição para esses tipos de filme, mesmo não sendo tão celebrada quanto suas obras feitas na Alemanha, foi essencial para a construção do que seria chamado de Cinema Noir, que caracterizava-se por histórias sombrias, realistas e até mesmo pessimistas, que eram compostas por personagens moralmente ambíguos (geralmente interpretados por atores não tão consagrados) e com cenários urbanos nada luxuosos, com uma atmosfera muito bem delimitada pelo uso das sombras, permeada de dramas niilistas, cheios de desconfiança e paranoias.

Após quase duas décadas trabalhando com sucesso nos EUA, ele retornou a Alemanha para a realização de suas últimas obras. Foram produzidos em 1959 os filmes: "O Tigre da Índia (O Tigre de Bengala)" e o "O Sepulcro Indiano", sendo este segundo uma continuação do primeiro e, para finalizar, "Os Mil Olhos de Dr. Mabuse", terceiro e último filme sobre o personagem-título.

Não encontrando o mesmo sucesso nesses filmes se comparado ao período em que, na Alemanha pré-guerra, decidiu voltar aos EUA e se aposentar. Faleceu, já quase cego devido à idade, em Beverly Hills, na Califórnia, em 2 de agosto de 1976.